01 janeiro 1997

a pátria de sapatilhas

a pátria de sapatilhas



Aula de dança na fazenda

Faça chuva ou faça sol, Akiko Ohara não consegue ficar parada. Emulando gestos de adolescente, essa senhora de 72 anos movimenta os braços, ergue as pernas, faz aberturas e ainda comanda com disciplina oriental 30 alunos, dos 5 aos 85 anos.

Quarenta e seis anos se passaram e a criadora do Balé Yuba não deixou de se perguntar como aqueles corpos, castigados pela labuta diária e o sol quente da roça, conseguem se tornar tão maleáveis sobre o palco.

São agricultores durante o dia que, à noite, transformam-se em bailarinos. "Eles não freqüentaram uma escola de balé nem havia tradição de dança em seus históricos familiares. O que sabem aprenderam aqui, dentro da comunidade", diz Akiko.

Ao lado do marido, o escultor Hisao Ohara, Akiko deixou Tóquio para tentar vida nova no Brasil, onde chegou em dezembro de 1961. "Um amigo disse que eu teria a chance de criar muitas coisas novas por aqui. Acreditei. Mas, para vir para cá, precisava trabalhar com alguma coisa que eu dominasse: o balé."

Do outro lado do mundo, Isamu Yuba, o criador da comunidade, estava procurando, naquela época, profissionais para tocar o projeto cultural em sua fazenda no Brasil. Bingo.

Quando o casal chegou a Yuba, juntou-se aos moradores para, em dez dias, colocar de pé o palco do teatro Yuba, que mede 10 m de largura por 12 m de fundo, com capacidade para 800 pessoas. É ali que acontecem, até hoje, as principais apresentações culturais da comunidade -além do balé, espetáculos teatrais são encenados na época do Natal.

Desde aquele dezembro, o Balé Yuba não parou mais. Neste fim de ano, completa mil apresentações. Já esteve em diversas regiões do Brasil, Japão e Paraguai. É um balé de dança moderna, diz Akiko, nas poucas palavras que articula em português.

Os garotos das primeiras gerações achavam que balé era "coisa de menina". Viviam inventando desculpas para cabular aula, que não é nem nunca foi obrigatória. "Aos poucos, de geração em geração, eles foram percebendo que a dança deve ser cultivada com o mesmo esmero que uma fruta", diz. "O balé se tornou tão indispensável para nós quanto a comida, a reza ou o sono. Faz parte de nossas vidas, da nossa essência."

As crianças têm aulas de balé duas vezes por semana (para os adultos, são três).

O Balé Yuba já teve cenários projetados por artistas como Manabu Mabe e Yoshiya Takaoka. Ex-colega de palco de mestres do butô (movimento que combina dança e teatro performáticos) como Kazuo Ono e o coreógrafo, bailarino, filósofo da dança e professor Tatsumi Hijikata, Akiko conta que o processo de criação da coreografia se divide em duas etapas.

A primeira sempre leva em conta o cotidiano rural da comunidade. Reproduz movimentos da natureza e jogos lúdicos infantis, por exemplo. A segunda busca inspiração tanto na cultura japonesa como na brasileira, do quimono às bombachas gaúchas, passando pelas festas tradicionais dos dois países.

Criado em 1965 e apresentado até hoje, o espetáculo "Bravos Pioneiros" narra a trajetória da primeira geração de imigrantes de Yuba. É o favorito de Akiko. "É o retrato do meu povo. Cozinheiras, lavadeiras, boiadeiros, agricultores...", diz ela. Gente que horas antes de subir ao palco está picando verdura para a salada, apanhando goiaba ou tocando a boiada no pasto. Em Yuba, a dança os iguala. "Quando a luz se acende, todos nós somos bailarinos."

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