04 janeiro 2010

ouviu o som... mas onde tudo aconteceu?

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古池や
蛙飛び込む
みずの音
芭蕉


o velho lago
o salto da rã
o som da água
- bashô
(tradução literal)

" a rã, de fato saltou na agua?"  Kai Hasegawa é um haikaista (poeta de haikai),  diz que 
há 300 anos, este que é o clássico dos clássicos, o mais famoso haikai do bashô, vem sendo interpretado erroneamente. E se não erroneamente, pelo menos mal compreendido. Diz o autor que a rã não pulou no lago, mas ao ouvir o som do sapo pular na água, o poeta Bashô imaginou, criou uma imagem do velho lago. Isto é, o som da agua é real, mas o velho lago não seria um lago que tenha existência real em algum lugar, mas um velho lago imaginário que surgiu na mente do Bashô. E que faz mudar a interpretação, é a presença da letra や "ya" que faz o corte na frase. Diz ele que se a rã tivesse de fato pulado, a construção do poema seria de outra forma.

ok, eu que sei um pouco da língua japonesa
fiz a minha traduçãozinha poética
temperado com a minha maneira própria de ver e pensar


ouvindo o som da água
é o velho lago
onde pulam os sapos
o círculo n'água
algas esverdeadas
mas... onde mesmo?
aqui e agora
dentro de mim
alam
Japan, Suzuka, 2010


procurei na net, algumas traduções, inclusive de alguns feras da poesia concreta como Haroldo de Campos, Paulo Leminsk, e outros não menos famosos como Millôr Fernandes e Caetano Veloso.



velho lago
mergulha a rã
fragor d'água
Alberto Marsicano
Haikai,1988






Velho tanque abandonado ao silêncio...
lança-se a rã num mergulho:
quase inaudível som da água.
Antônio Nojiri
Poesia japonesa, 2005





A Rã
Coro de cor, sombra de som de cor, de mal me quer
De mal me quer, de bem, de bem me diz
De me dizendo assim: serei feliz
Serei feliz de flor, de flor em flor
De samba em samba em som, de vai e vem
De verde, verde ver pé de capim
Bico de pena, pio de bem-te-vi
Amanhecendo sim perto de mim
Perto da claridade da manhã
A grama, a lama, tudo é minha irmã
A rama, o sapo, o salto de uma rã
Caetano Veloso e João Donato









silencioso lago
o sapo       salta
tchá
Carlos Verçosa, tradutor de Octavio Paz
Oku: viajando com Bashô,1996








No velho tanque
Uma rã salta-mergulha
Ruído na água.
Casimiro de Brito
Uma rã que salta: homenagem a Bashô, 1995






Velho tanque.
Uma rã mergulha.
Barulho da água.
Cecília Meirelles
Escolha o seu sonho, 1974






Embaixo do tanque
Não encontro o que procuro --
Uma rã me assusta.
Clóvis Moreira dos Santos
Haicais - 1a Antologia 2001, 2001





  Rã

No lago, mergulha
uma rã... Na água, a manhã
verde-azul borbulha...
Cyro Armando Catta Preta
Moenda dos Olhos, 1986







  Perereca

Elástica... pula...
Risco acrobático, arisco.
A poça se ondula...
Cyro Armando Catta Preta
Palhas do Tempo, 1993
























VELHA
LAGOA


UMA RÃ
MERG               ULHA
UMA RÃ


ÁGUÁGUA



Décio Pignatari
citado em Matsuo Bashô, de Paulo Leminski, 1987





Superfície verde.
A rã mergulha quebrando
a tranqüilidade.
Eduardo Martins
Poemas japoneses, 1950






chuá, chuá
coach, coach
tchibum!
Estrela Ruiz Leminski
Cupido: cuspido, escarrado, 2004






Uma rã saltando
blum -- o rio também
pula alforriado
Fernando Sérgio Lyra
Planos de Gaivota, 1996






Ah! o antigo açude!
E quando uma rã mergulha,
o marulho da água.
Guilherme de Almeida
Acaso: versos de todo tempo, 1938






No velho poço
plop e some, tão fria
a rã de Bashô
Gustavo Alberto Corrêa Pinto
Gotas de Orvalho, 1990








o velho tanque



rã salt'




tomba





rumor de água


Haroldo de Campos
A arte no horizonte do provável, 1969






camões revisto por bashô


as rãs


daqui e dali
s

l

a

d



a

t

n

o

o charco soa

Haroldo de Campos
Crisantempo: no espaço curvo nasce um, 1998






o salto da rã
sobre a folhagem
contorce o verso
Jaime Vieira
Hai-kais ao sol (antologia), 1995






Verde
Na lâmina azinhavrada
desta água estagnada,
entre painéis de musgo
e cortinas de avenca,
bolhas espumejam
como opalas ocas
num veio de turmalina:
é uma rã bailarina,
que ao se ver feia, toda ruguenta,
pulou, raivosa, quebrando o espelho,
e foi direta ao fundo,
reenfeitar, com mimo,
suas roupas de limo...
João Guimarães Rosa
Magma, 1997






Quebrando o silêncio
de charco antigo, a rã salta
na água, ressoar fundo.
Jorge de Sena
Poesias de 26 séculos, v.2, 1960





O velho tanque
uma rã mergulha
dentro de si.
Jorge de Souza Braga
O gosto solitário do orvalho, 1986







o    tanque      estanque

mergulho de rã: t
                           SHI
                                 bun !


circunfluindo ..
Josely Viana Batista
jornal Gazeta do Povo, Curitiba, s/d





Na beira do charco,
coaxa o sapo-ferreiro
e acorda o silêncio.
Leda Mendes Jorge
Haicais, 1999






Na antiga lagoa
pro fundo uma rã mergulha.
Barulho das águas.
Lena Jesus Ponte
Na trança do tempo, 2000

















Salta a rã no lago
((((( o tremor da água se espalha )))))
mergulha em galáxias.




Lena Jesus Ponte
Na trança do tempo, 2000




Ao pular de um sapo,
as águas do velho lago
se abriram sonoras...
Luís Antônio Pimentel
Tankas e haikais, 1953





Um velho lago parado... cerrado... calado...
de águas turvas e tranqüilas,
realizava, no deslumbramento da noite clara,
seu sonho antigo de ser espelho...
Seu fundo lodoso e sombrio
refletia, cheio de orgulho,
um cortejo relumbrante de estrelas,
quando um sapo, asqueroso e profano,
saltou sobre ele,
arrancando de suas águas
um arrepio de pavor
e um gemido estrangulado de agonia...
Luís Antônio Pimentel
Tankas e haikais, 1953





Água resmungona...
No tanque limoso
o pulo da rã.
Luiz Bacellar
Satori, 1999






O pulo
Estrela foi se arrastando no chão deu no sapo
sapo ficou teso de flor!
e pulou o silêncio
Manoel de Barros
Arranjos para Assobio, 1982






As pererecas
pulam no lago verde
A água suspira
Maria Apparecida Arruda
Hai-kais ao sol (antologia), 1995






Sobre o tanque morto
Um ruído de rã
Que mergulha.
Maria Ramos, tradutora de Osvaldo Svanascini
Três mestres do haikai: Bashô, Buson, Issa,1974





Nem grilo, grito, ou galope;
No silêncio imenso
Só uma rã mergulha -- plóóp!
Millôr Fernandes
Hai-kais, 1986






águas paradas
mal pula a rã se inundam
de ondas sonoras
Nelson Ascher
Folha de S.Paulo, 19/01/2004






Na grama da praça,
a rã salta, salta e assusta
a moça que passa.
Nilton Manoel
Poesia Mágica (Haicais), 2008




Ploc! Uma rã pula
no silêncio da lagoa,
e o silêncio ondula.
Oldegar Vieira
Gravuras no vento, 1994






Sobre o tanque morto
um ruído de rã
submergindo.
Olga Savary
O livro dos hai-kais, 1987







Ah, o velho lago.
De repente a rã no ar
e o baque na água.
Olga Savary
Bashô, 1989






O velho tanque --
Uma rã mergulha,
Barulho de água.

Paulo Franchetti e Elza Doi
Haikai, 1990








velha lagoa
o sapo salta
o som da água
Paulo Leminski
Matsuo Bashô: A Lágrima do Peixe, 1983




]



MALLARMÉ BASHÔ
    um salto de sapo
  jamais abolirá
    o velho poço
Paulo Leminski
La vie en close, 1991






No tanque vetusto
um estalido na água:
-- o salto da rã!
Primo Vieira
Bashô - Palhas de arroz, 1994







    Plenitude
A água está parada.
Uma rã salta no musgo.
Olho. E mais nada.
Raul Machado
As Cinco Estações, 1993





velho tanque
a rã salta
som do baque n'água
Regina Bostulim
Armadilha de Polvos, 2003






O tanque rachado.
Um fio de água molha
a pata da rã.
Roberto Saito
Fúrias - Faíscas - O grande silêncio, 1992





O sapo mergulha:
N'água fria da lagoa
uma pedra parda.
Ronaldo Bomfim
Essências e medulas, 2000











Com seu pulo mole
mergulha... A água borbulha
e num gole a engole...
Sebas Sundfeld
Sínteses Poéticas, 2002







Um velho tanque:
salta uma rã zás!
esquichadelas.
Sebastião Uchoa Leite, tradutor de Octavio Paz
Signos em Rotação, 1971










O sapo pulou
no velho tanque vazio
e... espatifou-se.
Sérgio Dal Maso
Natureza - Berço do haicai (antologia), 1996










No velho tanque,
saltou uma rã. O bulício...
Tei Okimura
A poesia e os japoneses: o "haikai"
in: Brasil e Japão, duas civilizações que se completam
, 1934










Ruidosas crianças
Afugentam da lagoa
As rãs de Bashô.
Teruko Oda
Relógio de sol, 1994






No capim que cresce
A pequena rã mergulha
Tarde cinza-chumbo.
Teruko Oda
Haicai - A poesia do kigô, 1995





Um templo, um tanque musgoso;
Mudez, apenas cortada
Pelo ruído das rãs,
Saltando à água, mais nada...
Wenceslau de Moraes
Relance da alma japonesa, 1925










O sapo, num salto
cresce ao lume do crepúsculo
buscando a manhã
Zemaria Pinto
Fragmentos de Silêncio, 1996