01 janeiro 1997

A Grande Familia

Em território paulista, a comunidade rural de Yuba reúne 61 japoneses e descendentes que abdicam de dinheiro, conforto e casa própria em nome do coletivo


Parte dos 61 integrantes da comunidade Yuba, na região de Mirandópolis (SP)

A grande família

por Roberto de Oliveira
fotos Maria do Carmo


Existe um lugar onde o Brasil faz fronteira com o Japão. Fica logo ali, a cerca de 600 km da cidade de São Paulo. Na saída da rodovia Marechal Rondon, a placa avisa: Associação Comunidade Yuba.

Em princípio, parece uma simples fazenda, com uma imensa varanda colonial e velhos tratores estacionados ao relento. Conforme se aproxima, o cenário se confunde. Yuba não é apenas uma propriedade rural nem seus habitantes meros lavradores. Às vésperas dos cem anos de imigração japonesa no Brasil, a comunidade cravada no interior do Estado ainda preserva costumes milenares e cultiva, além da roça, uma rotina cultural sem paralelos com outros confins do país.

Às 18h, uma senhora sai da cozinha, emite palavras incompreensíveis para a reportagem e saca um berrante, instrumento tão difuso no Brasil rural arcaico, para anunciar a hora da janta.

Os trabalhadores vão chegando e tomam assento em longos bancos do refeitório comunitário. Um minuto de silêncio antes de comer. Uns agradecem a Deus, outros a Jesus e há espaço para Buda.

Ao lado dos talheres, hashis, os tradicionais pauzinhos. Não se ouve uma só palavra em português. A língua oficial é o japonês, assim como o cardápio.

Não há refrigerante. O que se bebe é chá gelado. O jantar parece derradeiro em mais um dia de tarefa. Ledo engano.

Na comunidade Yuba, não basta só cultivar a terra. O sol se põe e a luz da noite ilumina mais uma etapa no aglomerado agrícola. O refeitório coletivo, repleto de ideogramas, vira uma animada sala de coral e piano.

A poucos passos dali, música clássica embala aulas de balé. Senhoras e senhores, que labutavam horas antes no campo, deixam seus sapatos do lado de fora e começam a se alongar. Na casa ao lado, um agricultor com as bochechas marcadas pelo sol toca trompete, enquanto a vizinha, ainda cheirando a alho de cozinha, pinta um quadro.

Ouvem-se gargalhadas. Vêm da biblioteca, onde adolescentes se debruçam sobre pilhas de livros na aula de japonês. As crianças de Yuba só são alfabetizadas em português a partir de seis anos.

Inteiramente comunitária, a vida em Yuba lembra o sistema social idealizado por Thomas Morus (1478-1535) na imaginária ilha Utopia. Com uma diferença: há 72 anos, um grupo de japoneses e descendentes luta para subverter as regras do sistema capitalista e manter coesa uma comunidade rural nos arredores de Mirandópolis.

Nenhum de seus moradores goza de regalias ou privilégios. Nem mesmo o presidente da associação. É livre a escolha do "setor" onde querem trabalhar -horta, roça, gado, com galinhas, porcos ou panelas. Eles exercem seus ofícios em sistema de rodízio, para garantir que todos aprendam um pouco de cada função e não resvalem no tédio.

O produto do trabalho, ali, não é grana no bolso. Ninguém recebe salário e não há transações locais com dinheiro. Se alguém precisa de um par de tênis novos para jogar beisebol, o esporte favorito da comunidade, leva o assunto à administração. O mesmo acontece com as outras necessidades materiais. Já alimentação, moradia e atividades culturais dispensam qualquer controle burocrático. Em Yuba, são direitos de todos.

Cultura de subsistência
Para manter a comunidade, há um gasto mensal em torno de R$ 15 mil que corresponde a despesas com telefone, energia elétrica, comida e manutenção do maquinário, explica, em bom português, o presidente da associação, Tsuneo Yuba, 53, no seu segundo mandato. Compram-se produtos como arroz, feijão, óleo, sabonete e café.

Cerca de 60% de tudo o que se consome é produzido na própria fazenda. Frutas, verduras, leite, carne, pão, manteiga, geléias, macarrão e até shoyu. Há um poço artesiano que abastece a fazenda, inclusive o ofurô coletivo, masculino e feminino.

Yuba funcionava como uma grande comunidade, mas, no papel, transformou-se numa associação, composta por presidente e vice, tesoureiro e secretários, eleitos de forma democrática, pelo voto direto. O quadro administrativo surgiu como alternativa para controlar a entrada de recursos, obtidos principalmente com a venda de frutas e legumes, e as despesas para sustentar o local.

Eles preferem manter em sigilo o faturamento da comunidade. "Temos todo interesse no lucro e estamos lucrando. Só que o dinheiro ainda só dá para pagar contas", diz Tsuneo. Como associação, os administradores alteraram estratégias de venda. Antes, os alimentos passavam por atravessadores, o que reduzia o lucro. Agora, vão direto para os pontos-de-venda, como supermercados.

Se a dificuldade financeira está sendo superada, Yuba enfrenta outro obstáculo: a sobrevivência de seu modelo. "Acho natural que a comunidade um dia acabe. Esse tipo de sociedade praticamente não existe mais num mundo capitalista e globalizado como o de hoje", diz Tsuneo.

A sobrevida, portanto, é responsabilidade dos jovens. O empecilho na hora de gerar novas famílias é que a maioria tem algum grau de parentesco. Cerca de 30%, por exemplo, são da linhagem Yuba -em japonês, lugar do arco. Recomenda-se, portanto, evitar o casamento entre eles.

Mas nem todos se vêem trocando alianças com um gaijin (estrangeiro). "Meu sonho é me casar com alguém da própria comunidade. Os rapazes da cidade são desinteressantes e infantis", acha Mie Yuba, 19. Seu irmão, Daigo, 23, diz não se importar se a garota é japonesa ou brasileira, mas faz questão de frisar: "Os japoneses ajudam uns aos outros e valorizam sua cultura. Isso é muito importante".

Yuba já foi uma grande comunidade, com cerca de 300 integrantes; hoje, são 61, contingente formado basicamente por adultos que não pensam em deixar a terra. "Nasci, cresci e casei aqui. É uma utopia que virou realidade", diz a cozinheira Yumiko Kumamoto, 48, professora de desenho nas horas vagas.

A resignação de Yumiko não é coletiva. Por exemplo: a comunidade não paga estudos a nenhum morador. De certa forma, isso impele os que querem estudar a deixar o grupo. Quem quiser sair para fazer faculdade deve contar com sua própria renda. Como eles não têm salário, muitos vão trabalhar no Japão, fazem um pé-de-meia e retornam ao Brasil para concluir o curso universitário.

Daigo, assim como outros jovens de Yuba, costuma sair nos fins de semana, para dançar, paquerar e tomar umas cervejinhas em Mirandópolis.

Arte, terra e oração

Yuba mantém atados os laços com a herança oriental introduzida por seu fundador, Isamu Yuba (1906-1976). No início dos anos 20, a região noroeste do Estado de São Paulo parecia o lugar perfeito para que um grupo de recém-chegados do Japão criasse um assentamento de imigrantes. O núcleo tinha até nome, Aliança, que para eles tinha o sentido de cooperação mútua entre imigrantes japoneses e a sociedade brasileira.

Cerca de mil famílias japonesas foram para aquela região e formaram a primeira, a segunda e a terceira Alianças, entre 1924 e 1927. Quando soube da idéia, Isamu Yuba, então com 20 anos, decidiu, apesar da resistência do pai, partir com a família composta por dez integrantes, rumo ao interior paulista.

O ano era 1935. Isamu começou a construir a fazenda com a ajuda de amigos que compartilhavam da mesma ideologia. Sob o tripé "cultivar a terra, orar e praticar as artes" surgiu a comunidade Yuba. Seu líder e fundador teria sido influenciado pelas idéias de Tolstói, Marx e Jean-Jacques Rousseau, aliadas aos ensinamentos da Bíblia.

Semelhanças com os kibutzim israelitas? Os parentes de Yuba descartam. Na comunidade, há quem defenda que a inspiração veio de uma antiga vila de descendentes lituanos, criada naquela época nos arredores de Bastos (SP).

O antropólogo japonês Koichi Mori, 51, do Centro de Estudos Japoneses da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, vê outras ligações. Ele acha que a criação de Yuba pode ter sido motivada, principalmente, pelas idéias do escritor japonês Saneatsu Mushanokoji, autor de um famoso romance intitulado "Atarashikimura" (comunidade rural nova), escrito no início do século passado e de cunho comunista.

Segundo o antropólogo, a obra influenciou a criação de comunidades agrícolas, parecidas com Yuba, em diferentes partes do Japão. Algumas delas existem até hoje. ''Yuba foi criada na época liberalista japonesa conhecida como Taisho. Entre os movimentos que surgiram naquele período, estão os de comunidades socialistas em áreas rurais'', explica.

Yuba, o fundador, morreu em 1976, aos 70 anos. Yuba, a comunidade, equilibra-se como pode para manter de pé a filosofia de seu criador.

Recepção de forasteiros
Os visitantes são apresentados à comunidade no refeitório coletivo. Eles devem respeitar o horário das refeições e jamais começar a comer antes do minuto de silêncio em agradecimento. Em nenhum momento o forasteiro será abordado pelos locais ou questionado sobre sua presença ali. Assim se sentirá à vontade para participar das atividades culturais e de lazer.

É um equívoco imaginar os moradores de Yuba vivendo em uma redoma, excluídos do contato social. Não há muros nem portões que delimitam a propriedade rural. As portas não possuem tranca, as janelas são fechadas por cortinas.

Há TV via satélite (telejornais japoneses e jogos de beisebol são os mais concorridos) e acesso à internet. Eles assinam três jornais (um de circulação nacional) e recebem muitos visitantes, brasileiros e estrangeiros -japoneses sobretudo.

Suguimoto Massaro, 63, chegou há pouco mais de um mês com a decisão de ficar. Não é sua primeira vez. Em 1965, havia passado seis meses na fazenda. Voltou para o Japão e perdeu o contato com a colônia. Vasculhando a internet, restabeleceu contato. Desta vez, jura que a mudança é definitiva. "Eu me sinto jovem aqui. É o lugar que escolhi para ter uma nova vida. Até vendi minha casa no Japão", diz, em inglês.

Responsável pela produção de shiitake, Yoshiki Tsuji, 56, que também costuma animar o refeitório comunitário após o jantar com seu clarinete, está em Yuba desde 1983. "Aqui não existem normas. Não me falta nada. Quero morrer aqui", contou, em espanhol fluente, idioma que aprendeu viajando pela América Latina.

Mesmo com todo o apego que exibem os mais velhos, o presidente da associação acredita que Yuba vive próxima do fim. "O jovem que sai para trabalhar ou estudar dificilmente regressa à comunidade", reconhece.

Para o antropólogo da USP Koichi Mori, há muito, Yuba se tornou permeável à lógica capitalista. ''Os jovens saem para trabalhar no Japão, para ganhar dinheiro e poupar'', conta. Koichi não arrisca um palpite sobre quanto tempo a comunidade irá resistir. ''O grande conflito cultural é como manter a união entre japoneses e descendentes'', diz ele.

Numa visão otimista, a salvação de Yuba estaria num novo ciclo de colonização japonesa, com a chegada de mais uma leva de imigrantes. Fato é que nos últimos dez anos apenas um japonês imigrou para Yuba e formou família com uma moradora local. Ao mesmo tempo, a evasão atingiu 20 yubenses.

Os que ali ficaram sabem que são herdeiros da terra e daquele modo de vida. Pelo menos enquanto a comunidade existir.

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