29 maio 2012

Saiu no Suplemento PALADAR do Estadão

http://blogs.estadao.com.br/paladar/de-bem-com-a-vida-poedeiras-vivem-soltas-e-ciscam-a-vontade/

De bem com a vida, poedeiras vivem soltas e ciscam à vontade
 • 24 de maio de 2012| 17h17|
 • Por Lucineia Nunes  

Por Olívia Fraga JAGUARIÚNA, SP



O segredo da felicidade das poedeiras da Yamaguishi é o amor. Amor dos criadores, tão delicados que até “batem na porta” antes de abrir a gaiola onde elas põem os ovos; amor da terra, onde ciscam à vontade das 10 da manhã às 16h da tarde, comendo minhoca, folha de bananeira, agrião e rúcula da horta; e dos galos, que ficam por ali para lhes dar segurança e prazer.
“A gente acredita no potencial desestressante do ritual reprodutivo”, filosofa Romeu Mattos Leite, um dos sócios da fazenda Yamaguishi, a pouco mais de 100 km da capital.

O veterinário defende o namoro entre galo e galinha para aliviar as tensões das poedeiras da linhagem lohmann, raça híbrida de porte altivo, parecida com galinha caipira apenas na cor das penas.
Comendo bem, de vida muito mais livre que suas colegas criadas em granja e com um macho por perto, as poedeiras passam bem. “Não têm como ser infeliz, elas vivem na vadiagem, só comem e dormem”, brinca Leite.

De bem com a vida, as galinhas têm seu espaço e não competem entre si. Por isso, não é preciso cortar seus bicos – prática disseminada na indústria para conter o canibalismo entre as aves, que as impede de comer verduras.

A Yamaguishi é das poucas fazendas de produção orgânica de ovos e hortaliças do Estado. Foi inspirada numa propriedade em Tsu, centro do Japão, onde Alam Minowa começou a trabalhar nos 90 – antes disso, ele e o irmão Isaack trabalhavam na granja do pai, em Londrina. Alan ficou tão entusiasmado com o modelo da fazenda japonesa que convenceu o irmão e o amigo de faculdade Romeu a irem visitá-lo.

A viagem virou estágio de dois anos. “Ninguém nem falava em orgânico. As pessoas diziam ‘criação de vida livre’ ou ‘humanizada’.”
Quando voltaram ao Brasil, venderam os negócios de Londrina e se fixaram na região de Campinas. “Não sabíamos o nome do que estávamos fazendo. A gente só queria produzir alimento, não mercadoria, de forma que meus filhos pudessem ter acesso a comida de qualidade”, conta Isack Minowa.

Construíram 15 galpões e aviários com lotação de 2,5 aves por m² (na criação convencional são 12 aves/m²), bebedouros distantes, teto solar, chão coberto de palha de arroz e poleiros, além de aberturas para que elas caminhem pela terra, do lado de fora, onde há árvores frutíferas. A ração de milho orgânico local é moída em quirera e misturada à soja orgânica trazida do Paraná. As galinhas comem ração à tarde, pouco antes de serem recolhidas para dormir.

As aves chegam pequeninas à fazenda, sem as mães, e são abrigadas em abas que imitam as asas da galinha e lhes dá calor. Outra diferença é que só começam a produzir a partir da 24ª semana de vida (no sistema convencional, botam antes da 18ª semana). Produzem por dois anos e depois são vendidas para abatedouros – a fazenda não tem licença da Vigilância Sanitária para abatê-las. “Dá pena, porque poderíamos vendê-las legalmente, já que são galinhas bem alimentadas e criadas, mas não temos permissão”, explica o veterinário.

Os produtores garantem que suas 12 mil galinhas não adoecem. Sua saúde é garantida pela alimentação baseada em verduras e administração de fitoterápicos, como extrato de própolis e melissa, e homeopatia, se alguma ave der sinais de fraqueza. “A dieta tem muito caroteno, que lhes dá força e garante ovos com uma gema bem escura e densa”, afirma o produtor.


“A criação convencional já entrou em colapso. Animais confinados adoecem mais e transmitem a doença para o resto da criação. Ou seja, se a indústria não der antibiótico com a ração, morrem todos”, diz Leite.
Certificada como produtor orgânico desde 2007, a Yamaguishi produz 10 mil ovos/ dia e quase não dá conta de demanda.