09 junho 2011

maria

by mariaser

PRISÃO
Se hoje eu tivesse forças para andar
Quebraria as amarras que inventei em mim
E feito bicho assustado correria.
Deixaria esta prisão traiçoeira se contorcer sozinha em meu leito
E faria o caminho se estender sem fim
Desafiando minha dor.
Que dor e que pena!
Pois o momento pede vento
Pede vôo.

FERIDA
Ferida estou. E daí?
Não posso?
Posso tanto, que estou.
O importante é essa natureza que em mim é.
Teimosia é o que não me falta!
Portanto, hoje me é lágrimas.
Amanhã poderá ser açude ou um riacho seco.
Nesta estrada negada, tudo pode acontecer.
Momento confuso.
Fico bem, fico mal.
E faço de mim um parafuso.

...?...
Assim a vida faz de mim um papel molhado
Encharcado.
Encharcado de quê? Pergunto eu
Nem vi a chuva que por aqui passou!
Assim a vida faz de mim uma folha seca
Tentando viver
Viver o quê? Pergunto eu
Nem chegou a primavera!
Assim a vida me faz uma mulher calada.
Silenciando o quê? Pergunto eu
Ao menos a multidão parou para me ouvir?
Assim a vida me pede licença para continuar me vivendo!
Aceito. Ela e eu nos confundimos mesmo...
Nos fundimos... Nos sumimos...
Com ou sem mimos...

ESQUECE!
O que mais quero é querer-me como sou.
É me ver num reverso de um espelho.
Meus olhos?
Minas nascentes.
Coisa ruim é a memória! Guarda tudo!
Milenar teia de aranha.
Queria não lembrar, de como vivi, de como fiquei.
Tanto tempo assim...
E você?
Sem mim.
Eu? Envolta em-vultos.
Sombras esticadas fazendo vidas.

LAMENTO
Me contorcendo na fadiga da vida
Alcanço apenas a intrigante agonia.
Coitada de mim mesma!
Não consegue criar respostas solucionativas.
Nem consego apelar para Deus.
Pois este Deus e perdeu em mim.
Ai! Ai! Se pelo menos eu acreditasse nele!
Jogaria para o céu esse meu indomável neutralizante sentimento!
Descasamento! Lamento indolente.

MISTUREBA
Cozinho
Bordo
Costuro
Escrevo
Lavo
Cuido
Bordo
Desarrumo
Danço e canso.
E não consigo a constante:
Felicidade
Alegria
Liberdade
Sabedoria
Dor
Elas são tão escorregadias!
Tão voláteis!
Que uma bomba atômica ou quase atônita levaria tudo
Levaria até mesmo o meu sonho de ser livre!


ESCURIDÃO
Bato a porta.
Não tem boa noite.
Apenas uma lágrima transparente.
Ninguém vê.

DORES
Posso tudo
E quase nada faço
Também quem pudera...
Tenho apenas uma cabeça voante, duas pernas finas e um corpo envelhecendo!
Que flutuantemente dorme/sonha-acorda/sonha
Portanto me sento aqui na via da vida
Logo passarão os passarinhos.

DECLÍNIO
Depressão, depressiva, devastada,
Devorada por mim mesma
Me calo diante deste sabor
Eu, logo eu que gritei tanto!
Descanso
Depois avanço. Depois.

NOITE
Embrulhei minha coragem
Torcida entre pânico e pressa de chegar ao fim.
Se é que existe um fim entre a vida a morte.
O medo passa, a dúvida chega, o amor adormece.
E minha vida agüenta meus pensares
Disfarçados se encolhendo em meus braços
À procura de mim mesma
Hoje me perdi, na escuridão do passado.

SOSSÊGO
Perdi ontem meu cajado, meu guia.
Segui cambaleantemente.
O vento me levando e eu levando um sopro
Da vida que me leva.
Encontrei hoje o meu cajado!
Já gasto
De tanto me procurar
Recostamo-nos e adormecemos!

RELUZES
Hoje quero ficar apenas com o que é meu:
Meus nãos, meus medos, meus frios.
O que tu fizestes, são teus.
A mim bastam os meus tropeços
Acertados em mim feito faíscas
Tão claras! Tão rápidas e tão belas!
Hoje quero apenas estas faíscas.

COMPANHIAS
Pedi um guia, uma guia
Quando me perdi em uns grãos de areia.
Cristaizinhos.
Eram tantos entre o mar e as rochas!
Rolando entre minha pele e as tabatingas!
Senhora de tudo naquele momento.
Tudo em mim: a terra, o mar, o som, as águas
E EU.

TEIMOSIA
O silêncio da tristeza
Me traz uma dor que em mim teima em ficar.
Cansada, aceito e declaro:
- “Fica, descansa em ti mesma, logo-logo serás apenas compostagem
Para sustentação de uma nova semente que em ti brotará”.

SEM TEMPO
Perdi meu cavalo,
E as rédeas que me prendiam a ti, toraram-se.
E partindo-se, fizeram-se um meio passante.
Cadê o verbo do quase-passado?
Eu preciso dele neste momento!

PACIÊNCIA
Aprendo a não contar os dias
Não sei contar as noites
As horas?
Que me importa contá-las?
Quero apenas o tempo
Curador.

FUI
O que ainda resta?
Larga busca de mim mesma.
Que mania! Vivo me buscando!
Do que fui e do que serei e do que sou!
Minha cabeça, minha alma, meus pensares
Minhas mudanças sou eu
Minhas lembranças sou eu
Então só me resta eu.
Tá bom. Fico então!

RESSESSO HOMONAL
Hoje, agora mesmo, não gosto de homem
Para casar ou namorar
Não por ser lésbica, pois não sou
Não gosto porque eles não sabem amar
Não sabem enxergar
Não conseguem sutilizar
Sabem sim, farejar o cheiro do cio
E buscar uma fêmea
Quando lhes abrem o apetite.
Se hoje sem sexo? Amanhã sem sexo?
Um mês sem sexo?
Eles azedam. Embrutecem
Eles não sabem amar sem sexo
E com sexo não sabem
Eu não gosto de homem
Sem que antes me enxergue transparentemente.
Me tenha antes de me ter.
Depois?
Depois pode ter sexo
Depois de muitos cheiros, sonhos, flores, banhos, contos, noites e dias no olhar.
Aos sessenta anos
Quero anos de maciez, de suscitez, de perenez, de sutilez, de benquerez, de adormecez, de descancez,
De vocês mulheres, quero outros verbos,
Para comigo conjugar.

ABORTO
Ufa! Finalmente hoje “descansei”
De uma prenhez indesejada
Adquirida estupidamente por mim
Quando o marido viaja para um encontro amoroso.
De repente uma barriga do abandono!
Fiquei tão irritada, enjoada, entojada, triste
Que me derreti em lágrimas e em lamentações
Pensei: “gravidez dura nove meses, não posso esperar tanto”.
Revirei-me pelo avesso. Expurguei.
E sozinha, com apenas três meses abortei.
Abortei dores, mágoas, medos, raivas, tristezas...
Que bom. Tomara que tenha saído tudo.
Parece que agora vou ficar bem.
Virão outros, mas agora me depurei.
Parece mesmo que a dor depura.
Claro que ardeu muito, mas valeu a pena.
E se voltarem?
Quem?
Os fantasmas das dores.
Abro as portas, fecho as portas, sei lá!
Boto uma música bem alta e os convido pra dançar.

COISAS DE MÃE
O filho cresceu muito
Um metro e setenta
É já um homem.
E eu tentando aconselhá-lo, engembrá-lo.
Besteira minha
Coisas de mãe.
Leseira.
Ele escorregou entre meus quereres
Os dele são bem mais interessantes
Para ele.
Para mim?
Floresta noturna
Vou sair fugindo, correndo pegar outro trecho, outra estrada - a minha.
Prometo.

RUAS DE CHUVAS
Já nem sei se a loucura
É dizer que tudo isto é assim mesmo
Ou é dizer que a dor é pura lucidez.
Se a loucura é sair gemendo entre as ruas chuvosas
E se contorcer em fracassos é que é lucidez.
Sou uma louca lúcida. Lúdica!
Desafio a capacidade de ser feliz.
De ter perdido o último trem
E mesmo assim correr sobre os trilhos noturnos.
De ouvir desprezos
E mesmo assim se julgar culpada por tudo.
Não sei se estou perdida
Ou se a loucura anda ao meu lado
Lado a lado feito uma raposa louca.
Já não sei mais o que me leva e o que me traz
Estou fora dos trilhos
De um trem que me atropelou
E não sei se o trem algum dia me viu ou me teve como sua quase eterna passageira.
Não posso mais alcançar este trem
Ele está hoje lotado.
Já tem sua passageira ideal.
Só me resta uma linha quebrada
Que se sou louca ela pode ser fantasmagoricamente inteira
Às vezes penso que a lucidez se confunde com a loucura
E então aí se dá o grande mistério da Vida
Que por sinal, fica de repente imperdível.
E assim eu vou perambulando entre as incompreensibilidades.
Pontilhando os absurdos do não querer ser o que sou.
Mas o que sou afinal?
Isto ou aquilo?
Não sei.
Nada sou além deste momento.
Se queres que eu fique feliz em tua felicidade
Dá-me então esta felicidade.
Se é que podes.
Talvez ela não me pertença jamais.
Já não sei mais de minhas forças
Muito menos de minhas impossibilidades.
Me sinto em um momento desconhecido
E as minhas armas são insuficientes para lutar.
Então preferiria mil vezes ser louca
Para que essa angústia fosse apenas uma brusca agonia.
O silencio de uma floresta dentro de sua escuridão
Seria insuficiente para acolher o que sinto agora.
Perdi tudo que me era: os meus desejos mais íntimos,
A minha capacidade de encontrá-los achei agora.
Isto eu agora sei
E o saber traz saberes que também soa tragicamente
Dentro de um peito cheio de um enorme vazio.
Sou nada não, ou sou um espaço cheio do não sei o que.
Nem quero reler este poema
Pois me levaria ao passado
E os passados são lanças em meu corpo.
Mas o que ainda me deixa viva é saber que tenho sonhos.
E que mesmo sem ver como, acredito que um dia serei eu os sonhos.
Esta dor em mim pede um perdão.
Se é que seja eu uma assassina de mim mesma.
Fugir feito uma louca tem uma atraência lúcida
Mas fugir acorrentada como estou
Gera uma incapacidade prematura.
Tenho medo de mim mesma.
Mas a lucidez de saber que sou vida
Traz uma vontade eterna de seguir até onde não conheço
Apenas para de lá dar um salto sem medo sobre os abismos que me protegem.

60
Acho este número redondo
E hoje eu o tenho como meu
Ele chegou hoje.
Depois de cinco dias de uma clara, grande e luminosa
Lua cheia, lua de maio, lua Buda
Ele entrou com a lua
E me sinto hoje redonda
Rodeando meus 60 anos
Branca em minhas roupas
Que em branco será todo o meu 60
Saias brancas, vestidos brancos, roupas brancas
Vamos caminhar neste tom.
Vão dizer que sou louca, ou santa...
Da luz, do reluz.
Eu mereço
Agradeço
Enalteço
A VIDA.

SEGREDO
Hoje, (ou há meses?) perdi um amor.
De anos e anos
Nele estava também talvez um amor.
Mas não faz mal, (desculpando-me) já estava perdido mesmo.
Eu é que tolamente não sabia.
Apenas hoje e ontem e anteontem é que percebi.
Ausência total. Silencio escorregando entre os teclados.
Dentro de tudo isto me atiro aos meus inconfessáveis segredos.
“Devo ser mesmo muito má, maligna, malfeitora...”
Para ser esquecidamente atravessada tortamente na vida do outro.
Hoje, mesmo sem ser lua cheia, nem lua nova, o nevoeiro do céu e o meu, ressurge.
E eu apenas urjo.

FOLHA DE PAPEL
Peguei uma borracha e tentei apagar
Todos os traços do meu papel.
Muitos eu nem tinha ensaiado!
Fiz papel com traços de mim a vida inteira.
Com aplausos. Alguns.
Mas hoje passei a borracha.
Me arrependi. Ficou uma mancha cinza.
Ali. Eu. Sobre um papel manchado.
Que susto! E agora?
Onde estou? O que fui? Onde serei?
Luzes apagadas, cena encerrada.
E eu dentro de um papel borrado.
Peguei o fósforo para queimar este papel.
Não tive coragem.
O que farei com a fumaça e as cinzas?

MULHER
Que tolice. Ser mulher!
Gosta de tudo arrumado.
E quando não consegue arrumar sua própria vida.
Cai em choros. Se lamenta. Se desespera!
Escreve coisas que ninguém entende.
Que besteira ser mulher.
Se atreve a tudo.
A se apaixonar, a amar de corpo e alma.
Vira borracha só para se esborrachar.
Acredita no amor eterno, quando amor tem.
Não entende nada do que seja homem.
Só acha muito estranho, ele não lhe ver no escuro.
Muito esquisito ser mulher! Sonha a toa! Conta tudo que sente! E o que não sente também!
Se eu não fosse mulher, não saberia ser outra coisa.
Gosto de ser mulher. Às vezes dói, mas gosto.

NADA NÃO
Já fiz tanta coisa!
Já cantei o hino nacional.
Já pulei corda, esticada e bamba.
Já peguei água na cacimba.
Já namorei, casei, separei, juntei.
Já quis morrer, mesmo de “barriga cheia”.
Já quis matar, mesmo sem arma alguma.
Já gritei – “O povo unido jamais será vencido”.
Já vi o povo sendo vencido, vendido, fudido.
Já fiz teatro nas ruas e super 8 como atriz.
Já comi feijão puro, sem mistura.
Já comi caviar, com garfo de prata.
Já fui índia e neta de português.
Já fui hippy, sem ser viciada.
Já pintei, bordei crochetei, costurei.
Já mãe, avó, filha,
Já fiz aborto me sentindo morta,
Já amei, odiei, perdoei...
E ainda não sei o que sou.
Mas um dia eu descubro e te conto.

VENTANIA
Se eu soubesse de onde vem minha dor de agora
Eu iria até ela
Faria um encontro alucinógeno.
E comigo carregaria tudo que há em uma mala.
E esta mala seria eu.
Arrumada ou desarrumada seria eu.
E no saculejo da estrada da vida
Meus ais seriam apenas vozes de mim mesma
Transando cordas que me levariam a novos rumos.
Rumo ao desconhecido.
E mudando o tempo do verbo
Conhecerei como se conhece o vento em sua invisibilidade.
Querendo que eu transite em mim sem obstáculos.
E vou eu desentupindo canais do tempo
Tempos de sofrimentos e tempo para entendimentos.
Escorregando em lodos que me levam a saber esperar.
Nada posso fazer, apenas esperar por mim mesma.
E espero tecendo em mim mesma uma saída.

SQUELETO PRETO
Meu corpo não alimentado há dias
Pede apenas cama.
Para sonhar.

4 comentários:

  1. Alam,
    Que bom ter encontrado você aqui, nesse mundo virtual.
    Ler as suas publicações, fazem o meu dia maior e melhor.
    Grata por compartilhar a beleza das poesias de Maria.
    Abraço carinhoso

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  2. Alan, me ver e me ler no teu blog me atrai uma querência grande de correr atrás desta beleza que a Lucia maria aponta.
    Obrigada por ter o mundo te colocado em meu caminho.
    maria

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  3. Quem é autora?
    Gostei imensamente da poesia dela.
    Só que recesso se escreve recesso...
    Onde encontrar mais poesias dela?

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  4. Gracinha, a autora sou eu, a Maria que mora na Paraíba e que escreve assim para não se perder, ou faz das letras caminhos para se achar.
    Grata por gostar imensamente.
    Manda teu emeio que te mando mais umas.
    beijos
    Maria

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pitacos carinhosos