19 março 2011

Samuel Bowles - "Charles Darwin estava errado"

Entrevista - IstoÉ
N° Edição:  2158 |  18.Mar.11 - 21:00 |

Samuel Bowles

"Charles Darwin estava errado"
Economista americano critica a teoria da evolução e diz que os seres humanos progrediram graças aos grupos mais altruístas
Solange Azevedo
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GENEROSIDADE
Bowles afirma que o mundo está se tornando mais altruísta
O americano Samuel Bowles, 71 anos, é dono de um currículo invejável. Ph.D. em economia pela Universidade Harvard, onde também foi professor durante quase uma década, atualmente ele dirige o Programa de Ciências Comportamentais do Instituto Santa Fé, na capital do Novo México, e leciona na Universidade de Siena, na Itália. Autor de diversos livros, Bowles foi conselheiro econômico em Cuba, na Grécia, do ex-presidente sul-africano Nelson Mandela e dos ex-candidatos à Presidência dos Estados Unidos Robert F. Kennedy e Jesse Jackson. Seus estudos sobre a evolução genética e cultural dos humanos têm repercutido em publicações de prestígio, como as revistas “Nature” e “Science”, porque põem em dúvida nada menos do que a teoria da evolução, de Charles Darwin, e a ideia de que os homens são inteiramente egoístas. “O comportamento humano é muito mais complexo do que a teoria da evolução supõe”, diz Bowles. “A seleção natural pode, sim, produzir espécies altruístas e cooperativas.”

- O sr. defende a ideia de que a gentileza foi fundamental para a evolução humana. Por quê? 
Samuel Bowles - A teoria da sobrevivência do mais gentil é uma crítica à teoria da sobrevivência do mais apto, de Charles Darwin. Diversas pesquisas feitas nos últimos anos, muitas delas por mim, têm mostrado que a seleção natural pode, sim, produzir espécies altruístas e cooperativas – em vez de seres humanos inteiramente egoístas. Darwin estava errado. 

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Como o sr. chegou a essa conclusão? 
Samuel Bowles - Por inúmeros fatores. A maioria das pessoas, em certas situações, é completamente altruísta. Muitas vezes, elas são generosas inclusive com estranhos e são extraordinariamente corajosas ao servir suas nações ou suas famílias. Como quando ocorrem desastres naturais ou para defender uma causa. Essa evidência de que os seres humanos não são inteiramente egoístas tem sido bastante estudada recentemente. Há diversos experimentos feitos em laboratórios que mostram que indivíduos que recebem dinheiro para dividir com outras pessoas, em geral, são generosos. Na maioria das vezes, eles fazem isso anonimamente, quando não estão sendo vigiados. Nesses experimentos, a maioria das pessoas não age de maneira egoísta, como costumávamos imaginar no passado, à luz da teoria da evolução.

- Como as pessoas agem? 
Samuel Bowles - Às vezes, são incondicionalmente altruístas, do tipo Madre Tereza de Calcutá. Em outros momentos, só são altruístas enquanto outras pessoas do grupo também agem assim. As pessoas têm compromissos morais. Claro que, em muitas situações, agem por interesse próprio. O egoísmo é uma parte importantíssima do repertório humano e não pode ser ignorado. Mas é fundamental ter em mente que o comportamento humano é muito mais complexo do que a teoria da evolução supõe. 

- Quais sociedades o sr. ­es­­tudou? 
Samuel Bowles - Tive o privilégio de estudar um grande número de sociedades em várias partes do mundo. Junto com um time de economistas e antropólogos, estudei 15 grupos na África, na Ásia e em países da América Latina, como Peru, Equador e Paraguai. Nesse experimento, demos dinheiro para algumas pessoas dividirem com outras. A regra era: se a segunda pessoa aceitasse a quantia que a primeira ofereceu, o jogo terminaria. Mas, se rejeitasse, as duas não ganhariam nada. Supondo que uma pessoa egoísta, que recebeu US$ 10, ofereça apenas US$ 0,50, se a segunda pessoa também é egoísta, ela vai aceitar achando que é melhor ganhar 50 centavos do que sair com os bolsos vazios. Mas isso não ocorre com frequência. Ofertas pequenas, quase sempre, são rejeitadas. E as pessoas rejeitam por raiva, para punir o egoísta. Alguém pode pensar: ‘Eram só US$ 10’. Em experimentos com grandes quantidades de dinheiro os resultados têm sido os mesmos. Por generosidade ou por medo da rejeição, quase todas as ofertas ficam próximas de 50%. Estudos como esse foram feitos em pelo menos 35 universidades e 40 países. 

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Os resultados o surpreenderam? 
Samuel Bowles - Não, pois tenho estudado o comportamento humano durante toda a minha vida. Se assistirmos à tevê, vemos que há muita gente fazendo coisas incríveis e perigosas para defender uma causa. As manifestações nas ruas do Cairo, no Egito, são um claro exemplo. Talvez, muitos economistas se surpreendam porque acreditam que o ‘homem econômico’ é egoísta. Muitos biólogos também, porque acreditam que a seleção natural só é capaz de produzir animais egoístas. Essa interpretação equivocada da teoria de Darwin é mostrada num livro que será lançado em breve, do qual sou coautor, chamado “Uma Espécie Cooperativa: Reciprocidade Humana e sua Evolução”. 

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A espécie humana é essencialmente cooperativa? 
Samuel Bowles - Exatamente. A questão central não é por que pessoas egoístas agem de maneira generosa, mas como a genética e a evolução cultural produziram uma espécie em que um número substancial de pessoas se sacrifica para manter as normas éticas e para ajudar, inclusive, pessoas estranhas. A seleção natural e a transmissão genética de pais para filhos podem, sim, produzir espécies cooperativas. Os primeiros seres humanos – de 50 mil anos atrás, dez mil anos atrás e assim por diante – viveram em condições adversas, de variações climáticas e desafios diante de outros grupos, em que indivíduos egoístas teriam sido bastante prejudiciais na competição pela sobrevivência. Os grupos mais cooperativos foram mais capazes de se reproduzir em larga escala. Creio que essa foi a razão de a espécie humana ter se tornado cooperativa. 

- Há sociedades mais altruístas e outras menos? 
Samuel Bowles - Há algumas sociedades em que, em tese, todo mundo oferece a metade para a outra pessoa e outras em que oferece 40% ou menos. Mas, surpreendentemente, também há locais em que as pessoas oferecem mais da metade. Nós, estudiosos, ainda não sabemos o suficiente para generalizar o grau de altruísmo no mundo. O que sabemos é que, em geral, menos de um terço das pessoas é egoísta. Ao contrário do que diz o senso comum, as sociedades mais avançadas economicamente – como os Estados Unidos e países europeus – não são mais nem menos egoístas do que países africanos, asiáticos ou latino-americanos. 

- A teoria da sobrevivência do mais apto e a da sobrevivência do mais gentil é mais ou menos presente, dependendo da sociedade estudada? 
Samuel Bowles - Não há uma única sociedade que eu estudei e onde experimentos tenham sido feitos que tenham confirmado a hipótese do “homem econômico egoísta”. Posso dizer, com certeza absoluta, que não há uma única sociedade já descoberta na qual os pressupostos dos economistas ou os da seleção natural – de que a espécie humana é inteiramente egoísta – tenham sido confirmados. O que temos são vários graus e diferentes tipos de altruísmo coexistindo com o autointeresse. 

- O altruísmo pode ser aprendido? 
Samuel Bowles - Certamente. Acreditava-se, no passado, que o comportamento altruísta ficava restrito a membros de uma mesma tribo ou vila ou limitado a grupos linguísticos. Mas, agora, sabemos que o altruísmo pode se estender pelo mundo todo. Muitos de nossos valores são influenciados pela nossa constituição genética. Mas também somos seres culturais, aprendemos através de exemplos – com as lições de nossos pais, professores, vizinhos, líderes nacionais e internacionais. Tenho 71 anos. Na minha juventude, era impossível imaginar que um afro-americano seria eleito presidente dos Estados Unidos, já que alguns tipos de espírito cívico não existiam nos anos 1950 e 1960. 

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De acordo com a sua teoria, como o comportamento altruísta influenciou a evolução cultural e genética dos humanos? 
Samuel Bowles - A pessoa é altruísta, de acordo com biólogos e também segundo a minha definição, se ajuda os outros sacrificando a si mesma. Para os biólogos, isso significa ajudar as outras pessoas a se adaptar, produzir mais crianças e cuidar delas até que elas próprias possam se reproduzir. Para os biólogos, no entanto, esse tipo de sacrifício só seria possível entre irmãos ou parentes próximos. Porque, se a pessoa abrir mão do próprio sucesso reprodutivo para ajudar um desconhecido, seu tipo altruísta é eliminado. O problema é que essa teoria desconsidera uma questão importantíssima: seres humanos vivem em grupos e nós sobrevivemos por causa disso. Se estivéssemos num grupo em que todos são egoístas, ele funcionaria precariamente e acabaria extinto. 

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Países e empresas poderiam ser mais bem administrados à luz dessa teoria? 
Samuel Bowles - Claro. Filósofos e advogados fizeram e ainda fazem leis baseadas no pressuposto de que as pessoas são completamente egoístas. Isso é um erro. Acredito que esse equívoco nos remeta ao filósofo Nicolau Maquiavel (1469-1527). Em um de seus escritos, Maquiavel afirmou que todo mundo é perverso, que a raiva torna as pessoas engenhosas e que a lei as tornaria boas. Pesquisas mostram que tratar as pessoas como egoístas pode ser um incentivo para que elas ajam de maneira egoísta. 

- Como assim? 
Samuel Bowles - Essa tese foi comprovada em muitas ocasiões. Uma delas em Israel. Em várias creches de lá, foi imposta uma multa para os pais que chegassem mais de dez minutos atrasados para buscar seus filhos. A proporção de atrasados dobrou a partir do anúncio da multa. Nas creches onde não havia essa regra, no entanto, a proporção permaneceu inalterada. Quando não havia multa, os pais sentiam estar violando uma norma ética e atrapalhando o andamento da escola e a rotina dos professores. Depois, chegar atrasado virou uma mercadoria que os pais poderiam comprar. 

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O mundo está se tornando mais altruísta ou mais egoísta? 
Samuel Bowles - Está se tornando mais altruísta ou, pelo menos, de espírito mais público. Parte disso ocorre porque nos tornamos mais universais e menos nacionalistas. Se nós considerarmos 50 anos atrás, a maioria de nossas conexões era com nossas famílias e pouquíssimas pessoas de fora.

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