08 fevereiro 2009

Darwin, o abolicionista

"... fez irmãos e irmãs não apenas de todas as raças humanas, mas de toda a vida. "


Adrian Desmond

Pernas acorrentadas, torniquetes usados para amassar os dedos das escravas fugitivas, um menino de 6 anos chicoteado por servir água em um copo sujo: parecem cenas de uma história de terror moderna, mas foram todas vistas pelo jovem Charles Darwin em suas viagens no Beagle ao redor da América do Sul escravagista.

Não se encontra menção sobre elas nas páginas muito racionais e científicas de "Sobre a Origem das Espécies". Mas examine os diários, os cadernos particulares e o passado familiar de Darwin e encontrará um homem imerso na retórica e na crença fervorosa do movimento antiescravagista.

O homem de ciência público foi influenciado por essas paixões privadas? À luz das minuciosas pesquisas em arquivos das cartas, papéis e anotações de Darwin, acredito que a resposta é um firme "sim". Embora ele nunca tenha admitido publicamente tal motivação política, o sentimento antiescravidão foi um importante apoio à grande conquista intelectual de Charles Darwin - a teoria da evolução.


Um jovem rico saído dos claustros de Cambridge, Darwin embarcou no navio Beagle em Plymouth em 27 de dezembro de 1831. Seu itinerário de lugares longínquos é bem conhecido. O que em geral se percebe menos é que a viagem tinha diversos objetivos.

Darwin viajou como companheiro do irritadiço capitão Robert FitzRoy, cujo principal objetivo era devolver três aborígines alakaluf e yahgan (para Darwin, "fueguinos", pois vinham da Terra do Fogo, o arquipélago no extremo sul das Américas). Eles haviam sido capturados na viagem anterior do Beagle e cristianizados como experiência. Darwin viveu durante meses com esses chamados "selvagens" civilizados e compreendeu em primeira mão que, como ele escreveu, a distância entre os selvagens e os civilizados não era maior que aquela entre animais selvagens e domésticos.



Ainda mais importante, a viagem expôs Darwin ao que poucos cavalheiros ingleses da época jamais veriam - a completa e crua barbárie da escravidão. Em terra na América do Sul, sabemos pelo diário que publicou em 1845 que Darwin viu aquelas correntes, os torniquetes e o menino de 6 anos chicoteado, além de outras "atrocidades de partir o coração". Ele se descreveu como incapacitado, enquanto estrangeiro, de intervir (só o garoto chicoteado teve sua interferência; não sabemos de outra instância).

Mas depois da viagem a frustração transbordou para seus cadernos evolucionistas - um recurso de crucial importância no desenvolvimento de suas ideias -, que condenavam o escravagista "que degrada sua Natureza e viola os melhores instintos ao escravizar seu semelhante negro".

Mais ou menos na mesma época, os apologistas da escravidão nos EUA afirmavam que os caucasianos e os africanos eram espécies diferentes. Essa alegação não era apenas dos propagandistas no sul do país, mas também de homens de ciência que possuíam escravos. As diversas espécies humanas não tinham uma origem comum, diziam - remontavam imutáveis à
época da criação.

Essas justificativas dos donos de plantações revoltavam Darwin. Mas não se limitavam aos EUA. Muitos antropólogos na Grã-Bretanha e na América atraíam grandes públicos depois da década de 1840 afirmando que os brancos eram a única espécie capaz de civilização. Afinal, diziam, os negros nunca haviam produzido "um Cícero, um Bacon ou um Shakespeare". Estavam destinados a ser apenas escravos ou criados.

Darwin era muito consciente da opinião das "espécies separadas". No Beagle, ele levou uma famosa obra de 17 volumes, o "Dictionnaire Classique d'Histoire Naturelle", que dividia os seres humanos em 15 espécies e, muito ofensivamente (na visão de Darwin), até citava os fueguinos e patagônios como duas delas. Darwin, que conhecia bem esses povos, sabia que eram relacionados intimamente, mas adaptados a terrenos diferentes. Para o "Dictionnaire", cada espécie tinha sua linhagem própria. Os fueguinos e os patagônios não apresentavam maior parentesco que os homens brancos e negros.

Assim, Darwin voltou à Inglaterra agradecendo a Deus "que nunca mais visitarei um país escravagista". Os eventos marcaram sua memória.

Mas a viagem não foi tanto um despertar quanto uma confirmação das opiniões radicais em que Darwin havia sido criado. Mesmo antes de embarcar no Beagle, ele foi preparado para detestar o que viu no Brasil. A extensão do envolvimento de sua família com o fim de toda a escravidão foi revelada por Jim Moore depois de pesquisar os negligenciados arquivos nas cerâmicas Wedgwood (Josiah Wedgwood, o mestre ceramista, foi o avô materno de Darwin). O trabalho minucioso com milhares de cartas desbotadas não deixou dúvidas sobre esse compromisso.

É muito sabido que o avô Wedgwood havia produzido o famoso selo "Não sou um homem e um irmão?" para a Sociedade para a Efetivação da Abolição do Comércio de Escravos - na verdade ele produziu milhares de medalhões com o lema a suas próprias custas, que se tornaram peças na moda, usadas em solidariedade, as papoulas vermelhas da época. Mas ele também patrocinou o grande agitador abolicionista Thomas Clarkson, o homem que percorreu 35 mil milhas entre portos coletando estatísticas sobre o tráfico. O dinheiro de Wedgwood também financiou a Sierra Leone Company, criada para ajudar os escravos libertos a se estabelecerem na África.

O primeiro encontro de Darwin com uma pessoa negra é tão intrigante quanto pouco conhecido. Enviado para estudar medicina na Universidade de Edimburgo em 1825, Darwin foi um fracasso, e os poucos anos que passou ali são geralmente desprezados. A cirurgia o aterrorizava; as palestras o entediavam. Mas, no meu entender, ele passou 40 horas no primeiro inverno aprendendo a empalhar aves com um escravo liberto das Guianas, John Edmonston, que contava histórias sobre a vida nas plantações e sobre a floresta tropical.

A Guiana estava no noticiário: uma rebelião de escravos havia sido esmagada poucos meses antes, e John (supostamente descendente de cativos na África Ocidental) havia percorrido a floresta com o explorador Charles Waterton, cujo "Wanderings in South America" eram a sensação do momento. Assim, para Darwin, que tinha quase 17 anos, havia um certo encanto na companhia desse homem no gélido inverno de 1826. John tornou-se um "íntimo" nas palavras do próprio Darwin.

Ele sabia que os negros podiam ser civilizados. Sabia que as raças não eram espécies separadas, como afirmavam os donos de escravos, mas ficou frustrado por não conseguir fazer nada sobre a escravidão no estrangeiro. Agora seu sentimento reprimido se despejou em uma nova e estranha ciência: uma que se baseava em uma verdade oposta e evidente, de que o escravo negro era "um homem e um irmão". Para ele, o corolário da irmandade era uma imagem racial radicalmente diferente da defendida pela maioria de seus contemporâneos: a de uma "descendência comum". E foi esta que formou a imagem central da original ciência evolucionista de Darwin.

Para a maioria dos colegas de Darwin, a evolução era, sob qualquer aspecto, bizarra e execrável. Um de seus professores de geologia e ordenado na igreja queria pisar com "um calcanhar de ferro sobre a cabeça desse aborto nojento".

As agonias de Darwin sobre suas próprias teorias são conhecidas. Ele levou três décadas para revelar plenamente suas idéias sobre a evolução humana. Criou sua teoria em 1837-1839, publicou "Sobre a Origem das Espécies", que evitou falar sobre a humanidade, em 1859 e finalmente tomou coragem para anunciar sua crença na evolução humana em "A Descendência do Homem" em 1871.

A questão ardente, na verdade, é por que um jovem recém-saído do Beagle, com uma carreira brilhante em perspectiva - um cavalheiro para quem a honra era tudo - pensaria em arriscar tudo para desenvolver uma teoria do "homem-macaco" que confrontava os princípios mais sagrados da sociedade cristã à qual ele pertencia; e por que ele perseverou nisso através de longos anos de dúvida e temível isolamento? É em sua relação com a escravidão e a causa abolicionista que encontramos a resposta.

Em primeiro lugar, existe uma pergunta incômoda a ser respondida. Se suas visões abolicionistas orgulhosamente defendidas eram tão centrais para sua ciência, por que Darwin nunca menciona explicitamente a ligação entre elas? A resposta é dupla. Primeiro, mesmo que ele reconhecesse conscientemente esses princípios morais como verdades evidentes, existe o segredo em que ele envolvia todo o seu pensamento sobre a evolução.

Em segundo lugar, há uma questão maior na maneira como Darwin concebia suas próprias "motivações". Darwin era um homem de ciência que trabalhou em uma época em que esses homens deviam seguir os princípios indutivos de Bacon. O próprio "A Origem das Espécies" apresenta seu trabalho como um acúmulo paciente de fatos que o obrigou a conclusões evolucionistas. Seus cadernos pessoais, escritos imediatamente depois da viagem do Beagle, contam uma história totalmente diferente; mas Darwin nunca teria concebido seus próprios estudos como motivados por qualquer outra coisa que não a observação e o raciocínio. Suas suposições subjacentes, como acontece com frequência com os cientistas, não foram examinadas.

A chave para se entender a posição conflituosa de Darwin e suas ações é não tanto a evidência que ele coletou quanto a maneira particular como ele as formulou. O relato dominante desse processo - que os "fatos" que ele descobriu forçaram sua mão e o levaram a desenvolver suas teorias da maneira como o fez - não se sustenta. Não há dúvida de que as aves de Galápagos e as preguiças dos pampas foram cruciais. Mas muitos naturalistas marinhos tinham visto tanto quanto Darwin viu e não gritaram: "Evolução!".

Darwin era diferente. E o historiador da ciência deve tentar entender o que o impeliu a ver a evolução especificamente, e unicamente, em termos da origem comum, e assim fazer do homem apenas um tipo melhor de bruto. Qual foi o ganho moral que superou as consequências: noites sem dormir, o medo da ridicularização, o ostracismo ou pior?

A resposta é clara. Levado por sua herança antiescravagista e a terrível experiência da escravidão no Brasil, Darwin voltou à Inglaterra em 1836 e imediatamente concebeu uma imagem de descendência comum. Seus cadernos evolucionistas particulares de 1837-1838 mostram que seu pensamento se afasta do parentesco e da irmandade raciais para unir toda a criação sofredora. Ele desenvolveu essas idéias em um momento de crescente euforia abolicionista, quando os escravos estavam terminando seu "aprendizado" compulsório e finalmente sendo libertados.

As origens comuns, naquela época, eram quase desconhecidas na história natural. Mas eram ubíquas na ideologia abolicionista. Essa literatura abolicionista foi a fonte de Darwin. A civilização não era uma prerrogativa branca, ele sabia. Esses sentimentos estão por trás da série de anotações de 1838 em que Darwin levou suas conclusões ao limite.

Existem diversas ironias aqui. Darwin estava libertando os escravos para torná-los igualmente humanos. Mas estava também transformando todos os humanos em animais, rejeitando os que "pensam que a origem da humanidade é divina". Para muitos de seus críticos, uma abominação estava substituindo outra; e o remédio evolucionista era tão ruim quanto a doença da escravidão.

Também há uma ironia mais triste. O humanismo de Darwin era subjetivo. Ele refletia a natureza conflituosa da sociedade britânica, em que metade do país estava tentando libertar os escravos enquanto seus compatriotas que viviam na Austrália e em outros lugares estavam ocupados exterminando os aborígines nômades em nome do progresso econômico.

O próprio Darwin havia testemunhado a limpeza étnica em escala mundial: os indígenas dos pampas na Argentina assassinados pelos gaúchos do general Rosas para liberar o terreno para o gado; os últimos tasmanianos levados para acampamentos. O Beagle chegou em meio das guerras xhosa no Cabo, no início da "Grande Marcha" bôer. Esses eventos prefiguravam um lado mais sombrio do darwinismo; e a visão do próprio Darwin se tornou mais sombria depois que ele leu em Thomas Malthus sobre as guerras e a fome como consequências das pressões populacionais.

Ele usou idéias malthusianas para normalizar e naturalizar o genocídio colonial, tornando-o parte do processo evolucionário, sugerindo que esse conflito não apenas foi "natural", mas benéfico (na medida em que os sobreviventes "mais aptos" levaram adiante a raça humana). Os povos incivilizados das planícies estavam indo no caminho da megafauna que ele encontrou fossilizada sob seus pés.

Mas Darwin viu o conflito colonial como uma inevitabilidade a ser explicada, e não uma opção política a ser contestada. É uma suprema ironia que o abolicionista gentil e revoltado acabasse justificando a erradicação colonial.

Ele não viu a incongruência. E com o passar dos anos, adotou mais as atitudes de sua classe cavalheiresca sobre a ordem moral, tecnológica e intelectual "superior" conquistada pelos europeus brancos.

Então temos de viver com Darwin, com verrugas e tudo. Ele foi um homem de sua época, um espelho de sua cultura; racista enquanto também salvador da raça, perturbado pela crueldade enquanto naturalizava o genocídio, capaz de pôr a culpa na natureza e não no homem. A história é confusa e Darwin sempre foi um pensador paradoxal, ainda mais quando começou a se curvar aos ventos no final da vida.

Para comemorar figuras históricas, precisamos primeiro compreendê-las. Em 2009, 200 anos depois de seu nascimento, é hora de acender um refletor sobre o Darwin mais jovem - o homem cuja crença na fraternidade humana se transmutou em uma teoria evolucionária da origem comum. Em vez de ser moralmente subversiva, como afirmam seus críticos cristãos, a realização de Darwin se baseou na moral. Em vez de ser uma prática desapaixonada, sua ciência teve um impulso humanitário. Ela fez irmãos e irmãs não apenas de todas as raças humanas, mas de toda a vida.

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