01 fevereiro 2009

Wade Davis




Ele não explica tudo. Nem pretende. Mas Wade Davis sabe, na pele, do que o mundo é feito. Desde que deixou a casa dos pais na costa oeste do Canadá, no começo dos anos 70, ele nunca teve a pachorra de ficar parado. “Eu queria desesperadamente ter uma vida interessante”, justifica-se. Trinta e tantos anos depois, eis um homem bem-sucedido. Explorador, antropólogo, etnobotânico, escritor, conferencista, fotógrafo, documentarista. Cutucou cantos do planeta que, literalmente, não estavam no mapa. Viveu no gelo, no deserto, em florestas tropicais, montanhas, ilhas e metrópoles. Em uma semana estava recluso na biblioteca de Harvard mergulhado em referências. Na outra, enxotava insetos cáusticos atrás de xamãs na Amazônia. Tudo em nome de uma vocação que se confunde com busca espiritual: trazer a infinita riqueza cultural do mundo aos olhos do Ocidente.

Adequadamente, ele vive em Washington D.C., a capital do grande império. Uma força política e ideológica colossal que se traveste de realidade. Entre os pomposos prédios do poder na Nova Roma, Wade não se ilude. Sabe que, por mais poderosa que sejam, política e economia são apenas cultura. Um conjunto de idéias, puro e simples, apenas mais uma resposta para a pergunta fundamental: nas palavras de dr. Davis, “o que siginifica ser humano?”.

Formado em antropologia e doutorado em etnobotânica (o estudo da relação entre povos e plantas com propriedades medicinais e psicoativas), Wade foi assistente de Richard Evans Schultes, o lendário explorador que “sumiu” na Amazônia por 12 anos e trouxe à tona para o Ocidente nos anos 40 as impensáveis possibilidades das plantas alucinógenas do xamanismo indígena. Foi seu tutor que o encorajou a ir para a floresta – em uma expedição que quase lhe custou a vida. Anos depois, foi Schultes que o convocou para uma viagem que rendeu seu primeiro livro, O arco-íris e a serpente, de 1982.

Em 300 páginas, ele narra sua jornada pelo Haiti, onde descobriu e identificou quimicamente a origem dos zumbis. Os mortos-vivos eram criações reais, pessoas julgadas por sociedades secretas haitianas, vítimas de um potente veneno à base de secreções do peixe baiacu. O feito trouxe respeito ao jovem pesquisador de Harvard, que desde então narra suas explorações mais do ponto de vista de um aluno do que de um professor.

Achatamento global
Dez livros de lá pra cá, quatro deles de fotografia. Wade acaba de lançar um filme em IMAX feito em parceria com Robert Kennedy Jr. sobre a deterioração do Grand Canyon. Também dirige e narra a série de TV da National Geographic Light at The Edge of The World. Mais do que vender uma paisagem exótica e curiosa aos seus espectadores, quer demonstrar que a riqueza da imaginação humana está seriamente ameaçada. “A extinção em massa não é privilégio da biosfera”, diz Wade, “a etnosfera também está em agonia.” Etnosfera, um termo que o próprio cunhou em seu último livro. Um conceito para resumir a rede de linguagem, idéias e crenças que cobre a humanidade.

Trip encontrou com ele em sua ampla casa, um verdadeiro museu de artefatos do mundo todo espalhados entre vastas estantes de livros de toda sorte. Em seu escritório, hoje lotado de obras sobre budismo e escaladas, trabalha duro para acabar seu próximo livro, um projeto de dez anos, sobre as primeiras explorações do Everest, o ambiente budista a que os ingleses foram expostos e o espectro da Primeira Guerra batendo à porta.

Dois dias antes da entrevista, Barack Obama fora eleito presidente dos EUA. Wade ostentava um sorriso de esperança e olheiras de cansaço. No dia anterior festejou... o autodeclarado conservador passou a noite com Bob Weir, vocalista remanescente do Grateful Dead, celebrando a vitória. “Não temos idéia do tamanho da nuvem negra que dissipou”, suspira, enquanto segue na luta para evitar o tão anunciado achatamento do planeta. Porque Wade, e você também, sabe que um mundo achatado, no fim das contas, é mais... chato.



Pra começar: como antropólogo, como você vê a eleição de Obama?
Ah... foi tão importante. Meu medo era de ele não ganhar, e nosso recado para o mundo seria, mais uma vez, que, apesar de tudo o que falamos sobre liberdade e democracia, nossas contradições persistem. Nossos fundadores fizeram uma bela constituição inspirada pelo melhor do iluminismo europeu. Mas com uma contradição fundamental: éramos uma economia baseada em trabalho escravo. Lidar com isso tem sido a nossa história. Obama representa a chance de finalmente começarmos a deixar isso para trás. Segundo, tem algo que acontece nos EUA, que inspira o resto do mundo: em tempos de crise eles encontram grandeza. Sempre foi assim, George Washington, Abraham Lincoln, Roosevelt. Os últimos oito anos basicamente foram uma traição da América e seus valores. É isso o Obama, uma afirmação do próprio espírito americano, um belo novo dia.

Não é perigoso tomar um só homem como um novo dia?
O que vale aqui é a demografia: 69% dos jovens votaram no Obama. Gente de mais de 65 anos votou no McCain. Então a pergunta é clara: quer ser parte do futuro ou do passado? Nem os liberais da minha época podiam imaginar que a geração seguinte iria tão longe. Em duas décadas, as mulheres foram da cozinha para a gerência. Em uma geração, os negros foram do barraco para o Country Club. Gays saíram do armário para o altar. Mas há muito, muito a ser feito.

Por exemplo?
Veja, os EUA se tornaram muito rapidamente a maior hegemonia do mundo desde Roma. E mantiveram essa miopia de um gasto absurdo com defesa e jovens que não sabem absolutamente nada sobre o resto do mundo. Uma porcentagem gigante de jovens daqui não sabe colocar o oceano Pacífico no mapa. Recentemente fiquei sabendo que a maior parte dos congressistas americanos não tem nem sequer passaporte! Esse tipo de isolamento é algo que não dá mais para bancar hoje em dia. E o Obama traz também essa possibilidade.



O que conservam os conservadores nos EUA?
Certamente não estão conservando a natureza. Mas acho que precisamos ser cuidadosos na hora de demonizar esse termo. Eu sou conservador de duas maneiras. Não devo um centavo a ninguém. Que é um valor conservador, republicano. E eu acredito em deixar terra para minhas filhas do mesmo jeito que eu herdei do meu pai. Isso é bem conservador.
Ao mesmo tempo esses caras me consideram um doido esquerdista fã do Grateful Dead. Pelo amor de Deus... somos nós os mais protetores e conservadores. Eu respeito valores tradicionais, valores verdadeiros. E não me importa que deus você adora.

Ao contrário, você parece gostar muito que as pessoas adorem outros deuses.
Sim. Porque muito do conflito das culturas tem a ver com a objetificação do outro. E isso não é exclusividade do Ocidente, é bom que se diga.


Quase todos os povos antigos se enxergavam como os únicos humanos. Ainda hoje muita gente vê os povos da Amazônia como selvagens, as culturas da África como primitivas. A nossa grande ilusão é que pelo nosso inegável e tremendo avanço tecnológico e econômico pensamos que outros povos ficaram para trás, ou parados intelectualmente. E nada pode ser mais falso do que isso.

Olha o budismo tibetano, não é uma ciência? O que é a ciência senão a busca da verdade? E o que é o budismo senão 2.500 anos de observação empírica da natureza da mente? Para o budista a evidência científica é a serenidade que alguém atinge seguindo a prática budista. Um monge uma vez me disse: “Nós não acreditamos que vocês foram para a Lua, mas vocês foram. Vocês não acreditam que nós atingimos a iluminação em uma encarnação, mas nós atingimos”.

Você disse que um dos componentes conservadores é o medo. Você, um conservador, tem medo de quê?
Vivemos em um tempo que é decisivo no que diz respeito a conseqüências. E o que pode ser mais significativo do que, em uma só geração, a perda de metade do legado cultural e espiritual da humanidade? É isso o que está acontecendo hoje. Meu medo é o mesmo da antropóloga Margaret Meade, uma pessoa única. Pouco antes de ela morrer, vendo o mundo indo para um caminho de homogeneidade, de uma cultura moderna tão poderosa que não teria rivais, ela temia que toda a imaginação da humanidade fosse confinada a uma única modalidade cultural e espiritual. E seu pesadelo era que um dia nós nos daríamos conta disso, mas não nos lembraríamos mais o que perdemos. É a degradação tanto da biosfera quanto da etnosfera.

O que é etnosfera?
Eu queria uma palavra que resumisse o seguinte: assim como há a biosfera, a rede biológica da vida, também existe uma trama que envolve a Terra, uma rede cultural da vida. É a soma de todos os pensamentos, sonhos, mitos, intuições trazidos pelo homem desde a aurora da consciência. A etnosfera é o grande legado da humanidade. Assim como a biosfera, a etnosfera também está seriamente ameaçada. E ainda mais do que o meio ambiente, eu diria. Nenhum biólogo ousa dizer que 50% das espécies estão à beira da extinção. Mas é exatamente isso que está ocorrendo com a diversidade cultural. O indicador máximo são as línguas. Hoje há 7 mil delas no mundo. Mas só metade está sendo ensinada para crianças. O que significa que, sem uma ação imediata e abrangente, essas línguas já estão mortas.

E por que a extinção dessas línguas é tão grave como você sugere?
Sete mil línguas representam culturas e modos e vida diferentes. São 7 mil respostas diferentes para a mesma pergunta: o que significa ser humano, o que significa estar vivo? Cada uma é um universo rico de como interpretar a existência em si.

O mundo está achatando?
Eu acho que o mundo continua sendo uma rica topografia do espírito. Não é achatado, mesmo. Nós temos essa idéia de que essas culturas coloridas e exóticas estão fadadas a desaparecer porque são tentativas fracassadas de serem como nós. Que há um sentido natural na extinção delas. Isso é um erro colossal. Na verdade são povos e culturas vivas e dinâmicas que estão sendo levados à destruição por forças claras. Ideológicas, como no caso dos chineses contra os tibetanos, industriais, no caso dos desmatamentos gananciosos, biológicas, como doenças levadas por brancos aos povos do rio Negro. Voltando ao que falávamos, no fim das contas é a economia que está destruindo culturas que não enxergam o mundo por esse prisma.


Entendo, mas por outro lado não é exatamente essa a história humana?
Uma das maiores dificuldades é que todas as culturas são míopes. Quer dizer, são presas a sua própria interpretação da realidade. Quase todas as culturas ancestrais encaram outros povos como não-pessoas. E essa é uma idéia que nós já não aceitamos. O problema é que nós, o Ocidente, não nos pensamos como uma cultura. Não pensamos nesse paradigma econômico, nessa troca global de produtos, capitalismo... qualquer rótulo que queira dar para essa coisa que nós fazemos para gerar riqueza. Não tratamos isso pelo que realmente é: uma opção, apenas uma forma de fazer as coisas. Nós tratamos como a única maneira de fazer as coisas, e como uma onda inevitável da história.

Nós chamamos economia de ciência. Ela ganha uma dimensão de verdade, de uma lei natural como física, biologia.
É! Exato. Como ciências sociais... um oximoro. A desculpa acadêmica é que a economia é baseada em matemática. Mas o que temos visto nos últimos meses deixa claro que essa economia é um jogo baseado em ganância mesmo. Lucro sujo, ponto. Todo mundo sabia que isso acabaria em desastre.
E eles continuaram até o fim por pura ganância. E está provado que essa idéia de desregularização é a permissão para o espírito da ganância agir livre.

E por que o mundo caiu nessa?
Nós empurramos ao mundo a idéia de que, se eles seguirem esse caminho, logo também chegarão ao nosso nível, ao lifestyle da Califórnia. Mas para todos desfrutarem essa vida precisaríamos de quatro planetas só para extrair energia. E muita gente é seduzida pela idéia do moderno e vira as costas para sua cultura para subir uma escada que leva a lugar nenhum. O fato é que o modelo ocidental que tanto veneramos está por aqui há 300 anos, isso é muito raso, mas teve um impacto profundo na capacidade de sobrevivência de muitas espécies. Meu Deus, nós estamos a ponto de acabar com os peixes nos oceanos, acabando com florestas nativas no planeta todo, mudamos a química da atmosfera, as grande geleiras estão derretendo...

Qual é a grande ameaça então?
É o poder e a miopia que destroem as culturas. O que precisamos é achar meio de as pessoas desfrutarem os benefícios do nosso modelo, que são muitos, sem que isso nos defina como pessoas. O que interessa aqui é que cultura não é algo trivial, decorativo. Cultura é um corpo de morais e valores de que nós precisamos para domar o coração bárbaro que existe muito perto da nossa superfície. É a cultura que permite dar sentido a um sentimento, a superar o medo. O ponto é que, se você entende que essas culturas não estão destinadas à extinção, então você entende que, se o ser humano é o agente de destruição cultural, podemos ser os facilitadores da manutenção das culturas diversas do planeta.
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Tem gente que defende um mundo mais homogêneo como uma possibilidade maior de harmonia, entendimento...
Muita gente fala que o mundo poderia ficar melhor com uma só língua. Para todo mundo se entender. Eu acho ótimo, então vamos aprender ioruba, que tal? Assim, uma pessoa que fala inglês pode entender como seria ser silenciada, não ter como transferir a sabedoria dos seus ancestrais. Mas é exatamente isso que acontece com muita gente a cada 15 dias. A cada 15 dias uma língua é extinta do mundo. Imagine o tanto que seria perdido se tudo o que foi escrito em inglês simplesmente sumisse. Todo Shakespeare, todo manual da Microsoft... O mundo não seria um lugar mais pobre? Eu já vi gente dizendo, “o que importa para mim se uma tribo na Amazônia sumir?”. OK, talvez nada... mas o que importaria para uma tribo da Amazônia se Nova York desaparecesse? Nada também... Mas o mundo não seria um lugar melhor se as duas possibilidades continuassem existindo?

Qual é então o bom legado do Ocidente?
Nada do que eu digo é para denegrir o Ocidente. Eu celebro o Ocidente assim como outras culturas. Eu não quero viver em um mundo sem os insights do budismo tibetano, da mesma forma que se eu sofrer um acidente de carro não vou querer um herbalista do Nepal – eu quero um hospital! Intelectualmente falando a grande idéia do Ocidente foi o iluminismo, a defesa de que o indivíduo tem o direito de determinar seu próprio destino, de se livrar da tirania do coletivo e da Igreja. E toda a ciência... Pense o que significa saber, sem sombra de dúvida, que temos um genoma praticamente idêntico, que todos os seres humanos são descendentes de um grupo de mil que saiu da África há menos de 100 mil anos. Isso não apenas destrói qualquer justificativa para o racismo como demonstra que, se nossas diferenças são tão grandes, nossas semelhanças devem ser muito maiores.




Onde esse pensamento falhou?
O iluminismo cresceu de forma extrema no positivismo, dizendo que se um evento não pode ser medido então ele não existe. Esse novo dogma acabou em uma obsessão por medir o homem, estabelecer padrões, por tratar todas as idéias místicas como bobagem. Acho que fomos muito longe nisso. Porque intuições sobre o espírito, idéias de Deus, de mitos, memória... tudo isso nos inspirou por milênios. A extrema desmistificação do mundo pela ciência ocidental também tem um paralelo social. As pessoas do mundo moderno são livres para pensar o que quiserem, mas também perdem um conforto que havia na fé e numa estrutura social mais sólida.

Você é o primeiro a afirmar que as culturas de todos os povos são diferentes ao interpretar a existência, ao achar sentido em ser humano. Depois de ter tantas versões, qual a sua?
O grande mistério da nossa espécie é o nascimento da consciência, o que nos distingue. A linguagem, o crescimento do cérebro, algum catalisador evolucionário nos encheu de consciência.

Isso implica uma resposta mística, espiritual para a existência?
O nascimento da consciência foi o nascimento do desencanto. Do surgimento das eternas perguntas: como e por quê? Se essa busca é real, externo no universo, ou se é apenas uma conseqüência dos nossos processos mentais, eu não sei. Mas acho que no fundo não importa. Porque claramente satisfazer os impulsos da consciência, ocasionalmente alterar essa consciência através de técnicas religiosas, é tão recorrente na história humana que precisa ser entendido como um componente do apetite humano. De onde quer que venha a consciência, da alma, de fora, de dentro, de algo comum a todos... isso nunca vai ser respondido. O que importa é reconhecer que somos feitos de dois elementos. O corpo e a consciência. E que felicidade?

E você, como sacia esse desejo?
Indivíduos como eu, que pularam fora das suas crenças originais, precisam achar seus próprios meios. Eu faço isso buscando crenças e culturas que me inspirem. E faço com um senso de missão, de propósito, com um forte senso de justiça social, que é trazer essas histórias para a atenção do público. Eu acho importante que as pessoas saibam que nos Andes tem gente que acha que as montanhas são vivas e que respondem aos homens. Não são apenas pilhas de pedra para serem exploradas. Que na Polinésia os homens sabem ler o mar e o clima com precisão através de sinais para os quais somos cegos. E tenho essa sorte extraordinária de poder fazer filmes e livros sobre eles.

2 comentários:

  1. Sei não Alan
    um tanto quanto perigosas algumas afirmações neste post

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pitacos carinhosos