01 fevereiro 1983

Comunidade cultiva amor à natureza e às tradições do Japão

sábado, 17 de novembro de 2007, 21:25 | Online


Conheça a Fazenda Yuba, um pedacinho de Japão localizado a 600 quilômetros de São Paulo

Maíra Watanabe Falseti, do estadao.com.br

Menino brinca sobre uma escultura de Hisao Ohara. Ao fundo, o Memorial Kitahara Wako

Alexandre Souza/Diário da Região/AE

Menino brinca sobre uma escultura de Hisao Ohara. Ao fundo, o Memorial Kitahara Wako

SÃO PAULO - Um lugar onde o respeito à natureza é algo primordial e a pressa simplesmente não existe. Um pedacinho de Japão localizado a 600 quilômetros da Capital, no qual as tradições estão em primeiro lugar e tudo pertence a todos. Bem-vindo à Fazenda Yuba, nos arredores de Mirandópolis, uma comunidade que tem como preceitos cultivar o solo, rezar e amar as artes.
Na propriedade de 35 alqueires vivem aproximadamente 60 pessoas, cerca de 20 famílias. São quatro gerações desde 1935, quando Isamu Yuba se uniu a amigos que partilhavam de seus ideais e, juntos, criaram um espaço onde a cultura japonesa pudesse ser preservada. Esse forte senso comunitário, origem de tudo, pode ser notado logo na chegada à fazenda. Entre as construções, destaca-se a que serve de cozinha e refeitório coletivo – a maior parte dos alimentos consumidos é produzida lá mesmo. Em sua volta, 40 pequenas casas de madeira.
Um dia típico na comunidade começa por volta das 6h30, na tal cozinha coletiva, chamada de "coração do Yuba". Na mesa, a comida é farta e saborosa: leite, ovos cozidos e gohan (arroz japonês). Depois, todos ao trabalho.
Existem horários para aulas de japonês, a língua oficial. Crianças e adolescentes também freqüentam a escola da cidade. O "currículo" na fazenda tem, ainda, esportes, música, pintura, teatro e balé. A dança, aliás, é uma das responsáveis por tirar a comunidade de seu isolamento. O Balé Yuba apresenta País afora coreografias que têm como base as tradições japonesas e o cotidiano na fazenda.

Mudanças

Recentemente, a comunidade teve de se tornar uma associação para poder administrar melhor a terra, as atividades e as finanças. "O dinheiro arrecadado com a venda dos produtos é dividido de acordo com as necessidades de cada um", diz o presidente da associação, Tsuneo Yuba, de 53 anos.

A divisão de trabalho, porém, não muda há anos – foi preciso apenas criar uma seção de Vendas. É por meio desse setor que a comunidade se liga com o mundo externo. Antes, parte da produção era vendida no Ceasa. Por causa da forte concorrência na Capital, a alternativa foi passar a abastecer os mercados da região.

Outras questões preocupam Tsuneo. Há algum tempo os jovens não têm interesse em viver lá: querem ir embora. Os casamentos em Yuba também estão cada vez mais difíceis, porque muitos têm algum grau de parentesco. "Está chegando a época em que será necessário abrir as portas. Será difícil, mas necessário."

Algumas mudanças já estão acontecendo. "Hoje, temos internet e vemos notícias sobre o Japão na TV a cabo", diz Satiko Yuba, de 58 anos. "O intercâmbio é importante, mas continuamos com nossa filosofia. Plantar, orar e fazer arte são nosso tripé."

Turismo

Há os que querem fazer intercâmbio cultural. E também os interessados em férias diferentes. Conhecida no mundo inteiro, a comunidade Yuba recebe turistas do Japão e de várias partes da Europa. Pessoas como os namorados Myo Shimika, de 25 anos, e Hitoshi Iwashita, de 28, que descobriram a fazenda em um programa da televisão japonesa.

Eles ficaram quatro meses no Yuba, em 2005. Em troca da hospedagem, prestaram serviços à comunidade. Escritora e jornalista no Japão, Myo passou a trabalhar na lavoura. Nas horas vagas, ensinava computação para as crianças. Falava com elas em japonês, a língua oficial em Yuba. "O mais importante foi a experiência de viver em comunidade. No Japão, as famílias são muito pequenas", conta Myo. "Eu precisava conhecer essas pessoas que vivem de forma comunitária, isoladas do resto do mundo", completa Hitoshi.

A professora Massako Moriwaki, de 34 anos, não sabia da existência de Yuba até sua chegada ao Brasil, em 2005, para ensinar japonês. E se surpreendeu com a vida simples na comunidade. "A facilidade com que dividem seus pertences é algo maravilhoso e impressionante." Encantada, Massako decidiu morar na fazenda. "Percebi como estava cansada de tanta tecnologia, da supervalorização do dinheiro."

Ela diz que o "jeito japonês de ser" em Yuba é muito antiquado. "Ao preservar fielmente os costumes dos fundadores, os moradores daqui acabam sendo mais 'japoneses' do que os japoneses atuais."

Berrante

Quando Merina Yasaki, de 63 anos, toca o berrante, todos já sabem: a comida está na mesa. O sorriso é constante em seu rosto, apesar da enorme responsabilidade de alimentar diariamente 60 pessoas. Poucos itens são comprados fora: açúcar, trigo, chá, óleo e sal. "Sei que custam caro, mas não tenho idéia dos preços", conta. "Meu trabalho é cuidar da fome dos outros."

Domingo, dia de descanso na comunidade, é o mais cansativo para ela. Afinal, todos querem algo especial, com direito a doces no lanche da tarde. E ela corresponde com bombas e bolos.

Merina tem quatro filhos e sempre viveu em Yuba, que deixou apenas para fazer viagens ao Japão. "Se um dia a comunidade acabar,vou ficar muito triste", afirma. "Não sei se vai acabar, mas às vezes isso pode acontecer."

Nenhum comentário:

Postar um comentário

pitacos carinhosos