25 fevereiro 2026

 

🎬 Perfect Days — de Wim Wenders

Image

Image

Image

Image

Eu gostei muito de Dias Perfeitos.

E digo isso não como alguém deslumbrado com estética minimalista, mas como alguém que já viveu o outro extremo: a intensidade das grandes narrativas, das utopias comunitárias, da crença na transformação estrutural como horizonte absoluto.

Talvez justamente por ter atravessado essas fases é que o filme me tocou.

O que me impressiona não é uma suposta resignação, mas a densidade do cotidiano. O personagem interpretado por Koji Yakusho não é um derrotado. Ele não parece anestesiado. Ele escolhe um ritmo. Ele cultiva atenção. Ele mantém uma delicadeza interior num mundo que tende à brutalidade funcional.

Num tempo em que tudo precisa ser grandioso, militante ou performático, o filme aposta na contenção. E isso, para mim, não é despolitização automática. É um deslocamento de eixo.

Eu já acreditei que mudar o mundo era o primeiro passo para viver plenamente. Hoje reconheço que, sem qualidade de presença, qualquer projeto coletivo pode se tornar máquina. Dias Perfeitos não oferece programa social, não propõe revolução, não idealiza comunidade. Mas oferece algo que considero raro: uma ética da atenção.

A beleza da luz nas árvores, a repetição quase ritual do trabalho, a música antiga no carro — nada disso me parece “fetiche da aridez”. Parece disciplina sensível. Parece alguém que não deixou o sistema capturar completamente sua interioridade.

Talvez o filme não seja sobre aceitar o mundo como está. Talvez seja sobre preservar a humanidade enquanto o mundo é o que é.

Eu continuo acreditando na necessidade de justiça estrutural, de debate público, de crítica às desigualdades. Mas também sei que sem densidade interior qualquer utopia vira doutrina. Nesse sentido, Dias Perfeitos não me parece resignado. Me parece maduro.

Ele não promete salvação coletiva.
Não romantiza heroísmo.
Não dramatiza sofrimento.

Mostra alguém vivendo com rigor, silêncio e alguma alegria discreta.

E isso, para mim — depois de tantas fases, crenças e rupturas — não é pouco.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

pitacos carinhosos