Por causa da recente polêmica envolvendo Wim Wenders no Festival de Berlim, voltei a pensar em Perfect Days e no furor que o filme provocou quando foi lançado.
Eu mesmo gostei muito quando assisti.
A delicadeza, o ritmo, a fotografia, e sobretudo a atuação brilhante de Koji Yakusho me tocaram profundamente. Mas, olhando hoje com mais distância — e à luz da minha própria trajetória — percebo que o que mais me impactou também é o que mais me inquieta.
Vejo no filme algo que, por falta de expressão melhor, chamo de “fetiche da aridez”. Uma estetização da escassez. Não da miséria explícita, mas de uma vida reduzida ao mínimo: repetição, silêncio, solidão organizada, pequenos lampejos de beleza no meio de uma rotina árida.
O protagonista encontra sentido:
na luz atravessando as árvores,
numa fita cassete antiga,
num gesto repetido com precisão quase ritual.
É bonito. É quase espiritual.
Mas eu me pergunto: isso é liberdade interior genuína ou é sublimação da falta de alternativas?
Talvez minha inquietação venha da minha própria história.
Eu vivi a fase das grandes utopias.
Vivi a crença na transformação coletiva, na reorganização da sociedade, na busca da “essência”. Acreditei na força da comunidade, na possibilidade de uma vida compartilhada que transcendesse o individualismo.
Depois vi como esses ideais podem se cristalizar, como estruturas podem se centralizar, como a promessa de verdade pode sufocar a subjetividade.
Hoje, quando vejo um filme que praticamente abdica da dimensão política e abraça uma ética individual de adaptação silenciosa, isso me toca de maneira ambígua.
De um lado, eu reconheço a dignidade do personagem.
Ele não parece derrotado.
Ele escolhe o ritmo.
Há uma força ali.
De outro, não consigo deixar de perceber a ironia: ele lava banheiros públicos o dia todo e mora num lugar onde nem sequer tem banheiro próprio para tomar banho.
Isso pode ser lido como crítica sutil ao sistema urbano contemporâneo, ou como normalização poética da precariedade.
E talvez o que me incomode não seja o filme em si, mas o espírito do tempo que ele simboliza.
Depois da derrocada das grandes lutas por igualdade social, da perda de fôlego das utopias coletivas que por séculos alimentaram uma ideia de comunidade, parece que o horizonte encolheu.
O que resta são micro-rituais de sentido.
Cada um que encontre sua forma de se adaptar à máquina.
Cada um que descubra sua pequena beleza privada para continuar levantando da cama todos os dias. Isso pode ser maturidade. Pode ser sabedoria.
Mas também pode ser despolitização.
Eu não nego a beleza do filme.
Pelo contrário, fui profundamente tocado por ele.
Talvez justamente porque hoje eu já não busco salvação totalizante.
Já atravessei a fase da crença absoluta na transformação estrutural.
Mas também não consigo aceitar sem tensão a ideia de que basta organizar a própria rotina e encontrar pequenas luzes no meio da aridez.
Entre a utopia totalizante e o minimalismo resignado, eu continuo buscando um terceiro caminho: uma comunidade sem dogma, uma política sem fanatismo, uma vida com beleza — mas também com justiça estrutural.
Talvez seja por isso que Perfect Days ainda ecoe tanto em mim.
Talvez minha inquietação venha da minha própria história.
Eu vivi a fase das grandes utopias.
Vivi a crença na transformação coletiva, na reorganização da sociedade, na busca da “essência”. Acreditei na força da comunidade, na possibilidade de uma vida compartilhada que transcendesse o individualismo.
Depois vi como esses ideais podem se cristalizar, como estruturas podem se centralizar, como a promessa de verdade pode sufocar a subjetividade.
Hoje, quando vejo um filme que praticamente abdica da dimensão política e abraça uma ética individual de adaptação silenciosa, isso me toca de maneira ambígua.
De um lado, eu reconheço a dignidade do personagem.
Ele não parece derrotado.
Ele escolhe o ritmo.
Há uma força ali.
De outro, não consigo deixar de perceber a ironia: ele lava banheiros públicos o dia todo e mora num lugar onde nem sequer tem banheiro próprio para tomar banho.
Isso pode ser lido como crítica sutil ao sistema urbano contemporâneo, ou como normalização poética da precariedade.
E talvez o que me incomode não seja o filme em si, mas o espírito do tempo que ele simboliza.
Depois da derrocada das grandes lutas por igualdade social, da perda de fôlego das utopias coletivas que por séculos alimentaram uma ideia de comunidade, parece que o horizonte encolheu.
O que resta são micro-rituais de sentido.
Cada um que encontre sua forma de se adaptar à máquina.
Cada um que descubra sua pequena beleza privada para continuar levantando da cama todos os dias. Isso pode ser maturidade. Pode ser sabedoria.
Mas também pode ser despolitização.
Eu não nego a beleza do filme.
Pelo contrário, fui profundamente tocado por ele.
Talvez justamente porque hoje eu já não busco salvação totalizante.
Já atravessei a fase da crença absoluta na transformação estrutural.
Mas também não consigo aceitar sem tensão a ideia de que basta organizar a própria rotina e encontrar pequenas luzes no meio da aridez.
Entre a utopia totalizante e o minimalismo resignado, eu continuo buscando um terceiro caminho: uma comunidade sem dogma, uma política sem fanatismo, uma vida com beleza — mas também com justiça estrutural.
Talvez seja por isso que Perfect Days ainda ecoe tanto em mim.
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